Para além do método: Perspectivas sobre lucro e capitalismo

O texto a seguir foi escrito como resposta a um amigo fora da minha área. Inicialmente conversávamos sobre algumas mudanças que novas metodologias (no caso, ágeis) poderiam criar dentro das organizações. Ele pareceu cético que certos valores da metodologia seriam apoiados por dirigentes. Acabamos com uma conversa sobre pressupostos e visões econômicas que desafiariam ou impediriam uma plena adoção de valores propícios a relações mais democráticas e justas dentro de empresas/organizações. Tudo começa com uma observação desse meu amigo:

***

Acho sua idéia interessantíssima no que se refere a empresa mais coesa
(de meu ponto de vista) em relação a subjetividades e aos humanos. No
entanto, me pergunto se isso parte de uma ética possível de ser
praticada no mercado atual. Em conversa com um mercadologista ele
afirmava que é um engano enorme achar que a empresa é amiga do
funcionário.

Você foi mesmo na ferida. Acho necessário envolver não apenas os colegas do meu setor, mas a organização como um todo nesses diálogos, e isso inclui os “dirigentes”. Pelo que você diz parece que você vê esse esforço como infrutífero e/ou ingrato. Humberto Maturana (Neurobiólogo, pensador sistêmico, construtivista, etc) fala que o ambiente de trabalho na gigantesca maioria dos casos não é “social”, considerando que o termo “social” para ele designaria espaços onde há aceitação mútua. O que se encontraria muitas vezes nesses ambientes são pessoas apenas se tolerando devido ao salário, dependência e/ou hierarquia. Nessa linha de pensamento, tolerar não seria o mesmo de aceitar, teria mais a ver com protelar a negação do outro. Quando observamos nosso cotidiano sob essa perspectiva, parece no mínimo desafiador conseguirmos trabalhar em contextos onde todos se aceitem mutuamente, não é? Parece mais fácil ser incrédulo na capacidade de integração/aceitação entre os atores (de diversos níveis) que formam organizações. Mas acho que isso tem mais a ver com as imagens e pressupostos (pré-conceitos?) que carregamos. De ambos os pseudo-lados. Vejo a distância entre os envolvidos e a insistência em perpetuarmos certas concepções velhas/distorcidas criando muita desconfiança e cegueira. Talvez uma cegueira de superioridade ou inferioridade. Então, quero rever e desafiar algumas dessas ideias que carregamos e que muitas vezes nos impedem até de dialogar de coração mais aberto e desarmado com aqueles que não parecem nos compreender ou aceitar (Lembrando que aceitar o outro não significa necessariamente concordar com e/ou aceitar ações e opiniões). Quem sabe posso esclarecer porque acho promissora a tentativa de dialogar com todos em busca de melhores relações em empresas/organizações.

O lucro seria melhor visto como um combustível.

Acho a questão do lucro um ponto-chave aqui. Ele é quase demonizado por certas correntes de pensamento. Mas será que o “problema” estaria no lucro em si ou estaria quando se pensa apenas em lucro? capitalismo socialO problema seria intrínseco ao “modelo” de empresa ou estaria na mentalidade-visão que (re)cria-usa “modelos” pouco sensíveis a nossa humanidade? O que você acha? A impressão que tenho é que pode haver sim espaço para uma forma diferente de empreender em empresas e que, deixando de lado a dicotomia socialismo/capitalismo, elas (empresas) não são obstáculos a uma sociedade mais solidária e livre, talvez até possam contribuir para isso também… Agora, para o tipo de empresa que estou falando, o lucro não seria visto como meta. Metas teriam a ver com serviços e/ou construção de bens que se supõe terem valor para si e a sociedade. E uma vez que entregar valor para o entorno seria um dos fins, evitaria-se entrar em contradição com isso. Dessa forma, o lucro seria melhor visto como um combustível. Combustível que se assemelha ao que a comida seria para nós humanos, afinal, nossa meta na vida não é comer (sem critérios). Embora precisemos de comida para sobreviver, nossa vida se volta *a coisas maiores*, supondo que a maior parte de nós busca mais significados e experiências além da mera subsistência. Além disso, há um ponto de saturação em relação ao combustível (ou comida), um ponto que se ultrapassado pode criar problemas de qualidade de vida e riscos à “saúde/harmonia” interna. Então, colocando o lucro neste contexto, fica mais fácil perceber que não faz sentido querê-lo apenas para si, assim como não parece muito inteligente deixar de se preocupar com a contínua harmonização (ou “sustentabilidade”) das condições e recursos que o viabilizam.

Essa visão de lucro pode ser encontrada também no livro “Você está louco” (2004) do empresário brasileiro Ricardo Semler (Seu primeiro livro de 1988 foi traduzido para mais de 30 idiomas e por conta dele viajou por 119 países. Recentemente tem se envolvido com iniciativas relacionadas a educação, vide referências 1 e 2). Nesse último livro, ele relata uma palestra que fez para os cem clientes mais ricos de um banco da família Rockefeller (sim, bilionários). Um dos focos era rebater a noção de que eles, empresários bem sucedidos, vivem para conseguir dinheiro. Na ocasião, concluiu seu discurso assim: “Vocês vão ao escritório toda segunda-feira para satisfazer a necessidade de sentir que estão vivos, que tem algo a cumprir enquanto estiverem na terra, que seus talentos precisam de vazão. Vão trabalhar por questões de auto-estima e por não entenderem a razão pela qual estão vivos, nada mais – e compreender isso com franqueza alivia muitas das sensações falsas que vocês dão como explicação fechada e resolvida.”. Deixando de lado se ele está correto ou não, o caso é que se trata de uma postura que retira o lucro do centro do palco. Estou simplificando aqui (até porque o foco não são as respostas), mas essa posição sobre lucro/dinheiro parece ser um começo para permitir o tipo de relação que gostaríamos nesses ambientes, não é?

Há esperança de mudança na mentalidade coletiva sobre como “donos” e “dirigentes” enxergam (ou imaginamos enxergar)? Acho que tal como as mulheres ganharam e ganham cada vez mais espaços/direitos, mudando as relações esposa-marido, mulher-sociedade, acredito que o mesmo também vem ocorrendo com os trabalhadores e a relação trabalhador-capital. Assim como o marido antes praticamente via a mulher como posse e hoje há instrumentos de divisão de bens, vejo de forma parecida casos de donos de negócios reconhecendo o papel de trabalhadores no crescimento mútuo desde o início de suas relações. Vejo coisas em comum em ambas as transformações culturais. Além disso, acredito que aprendemos algo com movimentos sociais que nasceram para combater injustiças, mas que se mostraram muito radicais/unilaterais, como por exemplo a postura dos adeptos do “Partido dos Panteras negras” em relação ao racismo. Acho que percebemos a importância de construir novas formas de relacionamento que integrem os lados. Mesmo a crescente preocupação ambiental reforça: Estamos todos no mesmo barco.

Mas você poderia dizer que isso estaria mais para utopia, sonho, ingenuidade, etc. Mas eu vejo que mesmo o “capitalismo” está mudando. Isso é um indício que as coisas não precisam continuar como eram no começo da revolução industrial, quando muitas das ideias socialistas foram importantes para atenuar a exploração e condições dos trabalhadores da época. Quanto a essas mudanças gostaria de mostrar alguns indícios. Certos autores vinculados ao “Mercado” já apontam para um novo contexto emergente, veja essa citação: “Em [seu livro] ‘O Futuro da Competição’, [C.K. Prahalad, em 2004,] o autor inseriu as experiências individuais como centro do processo de co-criação de valor, que passa a ocorrer em rede e de maneira colaborativa com o consumidor e outros agentes. Os autores retrataram um cenário de transparência e crescente acesso à informação, que deslocava o poder das empresas para as pessoas, criando a necessidade de diálogos baseados na confiança.” (3). Esse mesmo Prahalad defende uma espécie de “Capitalismo Social”, segue resumo do próprio nesta resposta dada numa entrevista que traduzo livremente, “Pergunta: Pessoas como Bill Gates estão falando sobre capitalismo criativo. Sua visão é muito diferente da dele, ou vocês estão convergindo para as mesmas ideias? Resposta: Não, na verdade não. Eu acho que esse é um debate importante. Você tem capitalismo criativo, você tem capitalismo com consciência, e então você tem capitalismo social ou inovação social. (…) Eu acho que as novas formas de capitalismo conseguem conectar duas coisas. Primeiro, elas conectam mercados justos. Ou seja, transparência ainda é importante. Avaliação justa de valor ainda é importante. Em segundo, co-criação. Nós coletivamente temos que entender o que é valor. Assim, se você conecta mercados, nos quais há entendimento econômico, transparência, acesso a informações, eliminação de assimetria de informação e em seguida você tem a ideia de co-criação, você tem democratização. Em meio a todo esse barulho, o sinal subjacente é muito claro: Nós nos tornamos mais interdependentes, nós reconhecemos isso e os mercados estão se tornando mais importantes como um modo de resolver problemas complexos. Então eu acho que democratização traz as duas coisas.” (4)

…exemplos de como uma relação diferente no relacionamento entre direção-trabalhadores não só é possível como já vem ocorrendo.

Você pode dizer que isso só mostra que há teóricos falando sobre e que não há na prática isso. É claro que mudanças levam tempo. No momento, encontro exemplos que mostram que essas novas ideias já estão sendo praticadas e dão bons indícios que não ficarão só nisso. Por exemplo, há um bom número de iniciativas assim na minha área, talvez por ser uma área relativamente nova e sem tantos vícios em crenças e hábitos antigos. Desde empresas grandes como a Google (que avançam tanto nos relacionamentos interpessoais internos/externos como com preocupações quanto ao meio ambiente) à empresas pequenas como uma chamada “Basecamp” (originalmente “37 Signals”), que mesmo podendo lucrar absurdamente fazem a escolha consciente de se manterem pequenas. Existe ainda uma, digamos, “corrente filosófica” que anda ganhando espaço nessa área (Desenvolvimento de Software & T.I.) que ataca o estilo “Comando e controle” de se administrar e trabalhar com grupos e que tem trazido bons resultados. Como diz um dos líderes dessa corrente: “Compartilhamento de poder é pragmático, não idealista.”(Kent Beck). E nem preciso falar de projetos como Linux e todo o movimento/comunidade Open Source que mostra a diferença que faz quando as pessoas acreditam no que estão fazendo e tem ótimas relações umas com as outras, sendo ouvidas e respeitadas.

De qualquer forma, entre empresas de outras áreas também percebe-se esforços nesse sentido, segue quatro exemplos de como uma relação diferente no relacionamento entre direção-trabalhadores não só é possível como já vem ocorrendo.

  1. A Natura chamou o próprio Humberto Maturana para consultoria e palestras. Eis um trecho de uma entrevista dele retirada de uma revista interna da empresa: “Pergunta: Que modelo de empresa é condizente com adultos éticos? Resposta: A origem das empresas são as pessoas. E pessoas éticas, dignas, com respeito aos outros inspiram esses valores em suas empresas. Isso tem mais relevância hoje: muitas empresas nasceram pela eficácia, pelo lucro, e estão tendo que se dar conta de que a consciência ética, na qual o respeito às pessoas é fundamental, é cada vez mais presente na sociedade.” (5).
  2. No livro “Você está louco”, o próprio Ricardo Semler descreve como foi sua jornada ao assumir uma empresa de tamanho médio (Semco) em meados dos anos 80, e junto ao pedagogo Clóvis Bojikian criar um maneira participativa de gestão (de inspiração democrática e até um pouco anarquista) que com o tempo tornou a empresa 30 vezes maior e uma das mais famosas empresas brasileiras no exterior. Logo no começo desse livro, ele resume suas frequentes iniciativas na empresa assim, “Muitas vezes deixando de lado as fórmulas comprovadas e abrindo espaço para outras, em que imperam a liberdade, o respeito ao outro, o poder compartilhado – e o sagrado direito ao ócio.”. Vale a pena conhecer como suas ideias controversas foram colocadas em prática e deram resultados fantásticos.
  3. Ainda longe de ser o que esperamos de uma empresa socialmente responsável e com abertura para diálogo, pelo menos a Toyota tem demonstrado esforços nesse sentido ao investir em carros híbridos (nos EUA) e em resistir a demitir na maior crise recente em seu setor e na própria: “Mesmo na atual crise financeira americana, a Toyota não demitiu, apenas adotou o processo de demissão voluntária. Preferiu manter sua força de trabalho ociosa prestando serviços à comunidade onde suas fábricas estão instaladas no território americano. Os empregados disponíveis para essa tarefa passaram a reformar e pintar escolas, creches, asilos, incorporarem-se à defesa civil, dar aulas, enfim, contribuir para o benefício da sociedade carente, sem perda de seus salários. Essa conduta gratificou os empregados e repassou um conceito corporativo altamente positiva à Toyota, em plena crise de imagem por que passam as empresas americanas.” (6). Aqui também: “Na fábrica da Toyota em Indaiatuba, interior de São Paulo, houve corte de horas extras e férias coletivas mais longas no fim do ano. Mas não houve demissões, segundo o Sindicato dos Metalúrgicos.” (7)
  4. Trecho de uma entrevista de um diretor de TI do Banco do Brasil relatando outro exemplo na Inglaterra: “A escola de informática ‘Happy Computers’ precisava encontrar uma maneira de enfrentar os novos desafios em seu mercado de treinamentos em curso de informática. Sabe o que ela fez? Inovou em seu modelo de gestão, valorizando mais do que nenhuma outra empresa os seus funcionários. Os gestores passaram a ser escolhidos pela equipe. Ou seja, o processo seletivo foi conduzido pelos próprios funcionários. Hoje, essa empresa cobra o dobro do preço da concorrência. Mesmo assim, tem o maior faturamento no segmento na Inglaterra, com uma receita 100% maior do que a da segunda colocada, apesar de o mercado, como um todo, ter perdido em média 30% do faturamento. Além disso, ela ganhou no Reino Unido todos os prêmios na sua área. Sabe por que a ‘Happy Computers’ fez isso? Porque há um deslocamento do centro de poder dentro das empresas. Cada vez mais o poder está migrando do centro para as bordas, pois é esse segmento que tem contato e conhece a realidade do cliente. E não podemos nos esquecer que o cliente sempre foi, é e será a verdadeira razão da existência das empresas, e que as pessoas são o ponto de partida e de chegada de qualquer corporação.” (8)

O que acontece quando o “meio de produção” volta para a casa junto com o trabalhador?

Em certo ponto de sua resposta você diz:

Tratasse de uma relação que é sempre pautada no lucro e
na melhor relação de mais valia clássica. Ele afirma que se o sujeito
não gera lucro a amizade acaba muito rapidamente. Um processo de
vinculação pautado por esta ética implícita seria interessante?

Acho que falei bastante sobre lucro. E não acho que “amizade” seja uma necessidade. Então vamos ao que sobra, o que acontece quando o “meio de produção” volta para a casa junto com o trabalhador? Será que as relações (pessoais, não de números) são as mesma da “mais valia clássica” num contexto onde:
  • Cada vez mais as máquinas estão se tornando commodities e a real diferença vem se dando não por meio delas, mas pelas pessoas e suas relações (criatividade, conhecimento, tato-sensibilidade, etc);
  • Há cada vez mais casos de empresas com participação na gestão e nos lucros (Algo que para ocorrer bem tem por pré-requisito transparência e compreensão dos “números da empresa” – Daí, por exemplo, os cursos que a Semco forneceu ao seu pessoal sobre contabilidade/finanças básicas e o trabalho de melhorar a legibilidade dos relatórios dessa natureza);
  • Há cada vez mais preocupação com a qualidade de vida. Ou seja, a percepção de que a simples maximização de lucro tem um preço a ser pago, seja em piora na qualidade de vida -de alguém- e/ou consequências sócio-ambientais indesejadas – preocupação que ocorre em casos de empresas que conscientemente não querem crescer a ponto de comprometer isso (9);

Acho que nos lugares como os que citei antes, onde uma outra ética se exerce (ou ao menos se tenta), se alguém não corresponde ao que se espera dela (e isso não só sob o ponto de vista de “donos” e lucro) não se desiste tão facilmente da pessoa. Busca-se manter conversações com ela e experimentar mudanças a partir disso e, sendo o caso, até mesmo fazer uso de treinamento, recolocação, etc. Agora, também acho que há limites, independentemente se o objetivo é apenas lucro ou mesmo em um trabalho voluntário, se alguém não está conseguindo se encontrar ou se encaixar no trabalho em grupo, mesmo depois de tentativas de fazer a coisa funcionar, não vejo porque persistir indefinidamente (sendo que os tempo e recursos que definem isso podem variar de lugar para lugar). Os objetivos e/ou perfis podem simplesmente não baterem e o melhor para ambos pode ser reconhecer isso e partirem para outra, evitando o que se vê em muitos lugares em que predominam o marasmo, má vontade e/ou incompetência.

Agora, é claro que esses itens não são perfeitamente implementados (existe perfeição?) nos exemplos que citei, e talvez haja muitos nichos onde agora nos pareçam impossíveis de serem implementados, mas existem exemplos, existem iniciativas e parecem-me um ótimo ponto de partida para mudanças cada vez maiores. Então, acho que um processo de vinculação pessoal realmente não seria interessante se não envolver um diálogo sobre a resignificação de lucro e relações de poder com todos os envolvidos. Mesmo em situações limitadas a um grupo dentro de uma organização maior, onde internamente não há diferenças em termos de nível de poder, essas preocupações e linhas de investigações cabem quando vemos a força criativa e transformadora por trás de relações interpessoais bem desenvolvidas. Nesse contexto, em alguns casos, pode ser necessário atuar como guerrilha para agir de forma contrária a maior parte da organização (ou como os dirigentes desejam). O que pode eventualmente acabar mal ou, na melhor hipótese, servir de exemplo e contaminar o restante da organização… Já vi relatos dos dois “desfechos”, e, como se poderia imaginar, dentro do universo que me encontro, terminar mal, ocorre muito mais. Cheguei a presenciar um destes finais e a impressão que tive foi que o não envolvimento dos “poderes” (Dirigentes/Gerentes) pode facilitar/agilizar algumas coisas, mas o risco das iniciativas não perdurarem e/ou esbarrarem em limites inibidores e sufocantes é muito grande.

Concluindo, se permite, traduziria suas dúvidas como duas questões: É possível e interessante uma organização, digamos, “social capitalista” (Pense em organizações com resignificação de lucro, transparência, responsabilidade sócio-ambiental, etc)? Em sendo, seria possível criar nelas melhores relações internas (atenção ao humano, redes de conversação distribuídas, diminuição ou extinção de comando/controle, etc) com maior capacidade de transformações internas e externas? Tudo que falei até aqui me faz ficar inclinado a pensar que sim para ambas as perguntas, ou pelo menos, que valem uma aposta nessa direção e experimentação. Mais ainda, que as duas se encontram em causalidade mútua, ou seja, a busca por melhores relações internas podem fazer uma empresa ir na direção “social capitalista” e a busca por uma empresa mais “social capitalista” cria condições de melhoria nas relações internas.

***

E um dos grandes problemas da história é que os conceitos de amor e poder são normalmente contrastados como opostos.

Algum tempo depois fiquei pensando sobre essa ideia de “social capitalista”, o nome não importa tanto quanto as características que descrevi, claro, mas li um livro que me fez relacionar a esse termo também. Ele começa com a seguinte citação:

“O poder propriamente entendido não é mais que a capacidade de atingir um objetivo. É a força necessária para provocar mudança social, política e econômica. (…) E um dos grandes problemas da história é que os conceitos de amor e poder são normalmente contrastados como opostos – pólos opostos -, de modo que o amor é identificado como resignação de poder, e o poder, como negação do amor. Agora temos de consertar isso. O que precisamos perceber é que o poder sem o amor é imprudente e abusivo, e o amor sem o poder é sentimental e anêmico.” (“Para Onde Vamos Daqui: Caos ou Comunidade?”, Martin Luther King)

Vale a pena ressaltar que os termos “Poder” e “Amor” no livro são entendidos com base nas seguintes descrições de Paul Tillich:

  • Poder – Impulso de tudo o que vive para realizar a si mesmo com crescente intensidade e extensividade, ou seja, o impulso para cada um alcançar o seu propósito, cumprir sua tarefa, crescer.
  • Amor – Impulso para a união do que está separado, ou seja, o impulso para reconectar e integrar o que se tornou ou parece fragmentado.

Com isso o autor do livro comenta da seguinte forma a citação inicial do Sr. King: “O poder sem amor é, de fato, imprudente e abusivo. Se nos engajamos em causas sociais apenas para nos autorrealizar, sem reconhecer que nós e os outros somos interdependentes, o resultado, na melhor das hipóteses, será nos tornarmos insensíveis e, na pior, opressores [impedindo a autorrealização do outro com a nossa] e até genocidas. E o amor sem o poder é, de fato, sentimental e anêmico. Se reconhecermos nossa interdependência com os outros e agirmos em busca de uma unificação, mas fazendo isso de modo a tolher nosso crescimento e o de outros, o resultado será, na melhor das hipóteses, o fracasso e, na pior, um fortalecimento do status quo de forma disfarçada.” (“Poder & Amor: Teoria e Prática da mudança social”, Adam Kahane, 2010)

De certa forma, quando me refiro a “Social capitalista” me parece que os aspectos “Sociais” estariam relacionados a esse “Amor” e os aspectos “Capitalistas” a esse “Poder” (Vontade? Liberdade de ação?). Acredito que na integração desses dois impulsos (ou, ao menos, ao deixarmos de imaginá-los como antagônicos) é que criamos chances para uma transformação mais generativa, duradoura e harmônica em nossas organizações.

Referências:

1) Palestra de Semler para vários ministros da educação no congresso “Learning and Technology World Forum 2009” (Legendas em pt-br disponíveis): http://www.youtube.com/watch?v=nkELvSqiUDw&NR=1
2) Escola Lumiar (fundação RALSTON-SEMLER): http://lumiar.org.br/index.php/a-escola/
3) http://epocanegocios.globo.com/Revista/Common/0,,EMI137048-16642,00O+OTIMISTA+PRAGMATICO+CK+PRAHALAD.html
4) http://business.in.com/interview/the-thinkers-50/ck-prahalad-can-you-make-profits-and-will-the-poor-accept-new-technologies/5912/2
5) http://meutrabalhoeeu.files.wordpress.com/2010/02/revista-natura_pra-quem-se-importa.pdf
6) http://maisrh.wordpress.com/2009/03/16/valorizacao-das-pessoas-e-prioridade-1-na-toyota/
7) Informação originalmente encontrada em (atualmente link quebrado) http://www.nippobrasil.com.br/dekassegui/505.shtml
8) Originalmente encontrada em (link quebrado): http://www.hsm.com.br/blog/2010/06/a-metamorfose-da-gestao/ Agora pode ser encontrada em https://marcelao.wordpress.com/2010/06/10/a-metaformose-da-gestao/
9) https://signalvnoise.com/posts/625-ask-37signals-pressure-to-grow

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